Estamos vivendo a monopolização da tecnologia? Veja o que está por trás do fenômeno de bilionários adquirindo empresas digitais

A tecnologia é um dos maiores motores da economia global. As ramificações da internet e indústria digital redefiniram setores e criaram novos negócios. Toda essa evolução não passou batida entre bilionários: no mundo dos ultra-ricos, um fenômeno tem chamado a atenção – a “monopolização da tecnologia”.

A aquisição de empresas digitais é cada vez mais comum entre empresários e conglomerados de indústrias tradicionais, como varejo, energia e telecomunicações. Mas o que está por trás deste fenômeno? Além disso, quais são as implicações para o mercado e a sociedade?

Necessidade de diversificação e novas fontes de renda

Os avanços tecnológicos implicam em mudanças rápidas no mercado e no comportamento do consumidor. Com isso, empresas tradicionais (mesmo as mais consolidadas) estão “vulneráveis”, em maior ou menor nível. Ciclos econômicos voláteis exigem adaptações ágeis e com a tecnologia, companhias encontram formas de se atualizar mantendo margens de lucro atraentes e escalabilidade. Ao investir no digital, conglomerados não ficam reféns de mercados já saturados.

Um exemplo é a Disney, que comprou produtoras de audiovisual e ampliou seus investimentos em streaming para não depender apenas de parques temáticos e cinema.

Aquisição para evitar concorrência

Acompanhar todas as mudanças tecnológicas, que são constantes, exige muita agilidade e pode ser uma tarefa difícil, principalmente no caso de empresas mais tradicionais. Adquirir companhias digitais que estão em rápido crescimento é uma forma de diminuir a concorrência e evitar a consolidação de empresas que possam ser vistas como “ameaças”.

Um caso notável foi o da Blockbuster vs. Netflix: a antiga rede de locadoras rejeitou a compra do serviço de streaming. Posteriormente, o streaming passou a dominar o mercado. A Netflix virou líder no setor e a Blockbuster, por sua vez, foi extinta. Para evitar o mesmo erro cometido pela rival, a Netflix estuda maneiras de manter relevância e acompanhar de perto concorrentes indiretos.

A empresa investe não somente em produções audiovisuais, mas também em jogos. Desta forma, evita-se perder o público para concorrentes indiretos (como redes sociais e video games) e a oferta de entretenimento torna-se ainda mais diversa.

Monopolização da tecnologia para controle de dados e inteligência artificial

Nos dias de hoje, dados são tão valiosos que podemos chamá-los de “petróleo virtual”. Isso porque empresas que conhecem seus clientes e seus respectivos hábitos de compra saem na frente na hora de atrair e manter seu público. Por conta disso, é comum que indústrias tradicionais, como bancos e seguradoras, adquiram fintechs para aproveitar o melhor dos “cookies” e  “Big Data”.

Expansão para o ambiente digital

A busca pela expansão é um mecanismo de sobrevivência para empresas. E muitas encontram no digital uma maneira de expandir: além de expandirem seu portfólio de produtos e serviços físicos, abrem um leque de produtos digitais. Um dos maiores exemplos da atualidade é a Apple: começou como um hardware, se consolidou como gigante na produção de celulares e aparelhos eletrônicos e, atualmente, tem um grande crescimento por meio de serviços digitais, como o Apple Music e iCloud.

Vantagens regulatórias e barreiras de entrada

Fusões diretas entre concorrentes podem ser bem burocráticas. Todavia, aquisições horizontais (que dizem respeito a compras de empresas de diferentes setores) são menos complexas. Portanto, empresas tradicionais podem aproveitar essa “brecha” para adquirir novos negócios e entrar no digital sem enfrentar tantas restrições.

Valorização de marcas e ativos intangíveis

A aquisição de startups vai além do produto oferecido por elas: conhecimento e reputação vendem; o know-how e a imagem inovadora são bens requisitados. Prova disso é que a Unilever, organização gigante e multinacional, adquiriu startups de alimentos veganos para se associar à sustentabilidade.

Riscos e críticas à monopolização da tecnologia

A monopolização tecnológica gera preocupações. Ao longo da história, já foi necessária a intervenção do Congresso para instituir leis antitruste. Tal fato ocorreu entre o século XIX e o XX nos EUA, como forma de controlar o crescimento desenfreado de algumas empresas. O fenômeno da monopolização é estudado pelo acadêmico Jonathan Taplin, que publicou a obra “Move Fast and Break Things: How Facebook, Google, and Amazon Have Cornered Culture and What It Means For All Of Us”, que em tradução diz “como Facebook, Google e Amazon encurralaram a cultura e o que isso significa para todos nós”.

Nessa obra, Jonathan defende que as medidas adotadas na virada do século passado deveriam, também, ser implementadas nos dias de hoje. Taplin considera que as gigantes digitais são monopólios que conseguem se esquivar da legislação que deveria controlar o poder dessas mesmas empresas.

Na lógica desta teoria, observamos fatores como: concentração de poder, com poucas empresas controlando múltiplos setores que podem sufocar a concorrência, um grande acúmulo de dados (muitas vezes sensíveis) sobre consumidores, o que prejudica a privacidade e limitação de inovações, visto startups podem ser “engolidas” antes de atingirem seu potencial.

O cenário reflete uma realidade: a tecnologia é o centro do poder econômico da atualidade. No entanto, é preciso equilíbrio. É necessário atenção por parte de consumidores, reguladores e do próprio mercado para garantir a inovação contínua e evitar o excesso de monopólios. Assim, a sociedade, como um todo, segue se beneficiando. Enquanto isso, a corrida por ativos digitais só tende a crescer.

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