ESG na contabilidade: como as novas normas de sustentabilidade impactam o setor e como se preparar para elas?

O papel do ESG na contabilidade (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) encaminha-se para lidar com uma crescente atenção, enfrentando pressões que deverão se fazer cada vez maiores nos próximos anos – talvez, já nos próximos meses. O movimento acontece motivado pela preocupação global com o cenário ambiental atual.

Em tese, o tema já estava dentro da análise de investimentos e da gestão corporativa das companhias há um bom tempo – fossem elas listadas ou não na Bolsa de Valores. Na outra ponta, levando em conta todas as outras preocupações de uma companhia, o ESG não recebia a atenção necessária ou prometida, mas isso parece se redesenhar a partir de agora.

Aqueles que acompanham o mercado empresarial sabem que o momento de quitação dessa dívida se aproxima e, com isso, aqueles que não honrarem os seus compromissos poderão lidar com repercussões bem desagradáveis para uma companhia – daí a importância dos contadores. Entenda neste artigo:

– ESG na contabilidade: o que cabe ao contador? Entenda a dinâmica:

ESG na contabilidade: o que cabe ao contador? Entenda a dinâmica

Independente do nicho de atuação de uma companhia, a dinâmica do ESG na contabilidade de qualquer uma delas não muda muito. Isso porque, a base é parecida e o objetivo é o mesmo. Sendo: estudar como promover o cuidado com cada uma das letras da sigla.

Com isso, a responsabilidade da contabilidade é criar uma forma de guiar financeiramente as estratégias do grupo, pensando pelo lado ambiental, levando em conta a responsabilidade social e uma governança sólida. A equipe de finanças ainda tem de assegurar que o plano de ação estabelecido não vá atingir negativamente os respectivos balanços das empresas, ao final de cada trimestre.

Além de os contadores analisarem os impactos financeiros das estratégias, eles também têm de identificar quais iniciativas são viáveis e contribuem de forma positiva para com os objetivos.

Uma vez implementadas as estratégias ESG, também será função do time de contabilidade desenvolver relatórios financeiros e orçamentários, para ajudar a companhia a se planejar e a monitorar as iniciativas. Só até aqui, já dá para ter uma noção de como o papel dos contadores será fundamental nessa nova fase que se estabelece.

Eles desempenharão um papel crucial na transparência e na conformidade das finanças do grupo, garantindo que todas as atividades estejam alinhadas com as melhores práticas – e é justamente aí que os diretores executivos podem sentir o peso das responsabilidades ESG chegando.

A ascensão do tema que irá tirar os CEOs da zona de conforto

Agora que a situação começa a mudar de figura, alguns CEOs (sigla em inglês para presidente executivo) podem ser retirados da zona de conforto, pois a responsabilidade ESG caminha para deixar de ser uma prática voluntária e se tornar uma obrigação de todos.

Isso significa que as companhias terão de, de fato, estabelecer um cronograma sustentável e aplicá-lo, pois as mesmas serão cobradas por isso. O ponto da questão é que adaptar-se às mudanças pode ser um desafio avassalador e tanto – e nem todas as empresas saem ilesas disso.

No Brasil as coisas aceleram só agora, mas por exemplo, há um ano, a União Europeia estabelecia uma Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD). A legislação exige que todas as grandes empresas divulguem informações sobre o que consideram riscos e oportunidades ESG. A ideia é ajudar os investidores, organizações da sociedade civil, consumidores e outras partes interessadas a avaliar o desempenho de sustentabilidade das empresas.

Definitivamente, expor a contabilidade não é a parte favorita das companhias. Aquelas que não são obrigadas a debater sobre o assunto, o evitam, enquanto as que são obrigadas a prestar esse tipo de esclarecimento, o fazem a cada trimestre do ano e, dependendo do que estiver no documento enviado à Comissão Mobiliária de Valores (CVM), as empresas sentem o impacto disso já no mesmo dia de envio.

Nesse sentido, alguns dados do levantamento realizado pelo especialista em Contabilidade e Mercado de Capitais da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), Fernando Dal-Ri Murcia, provam a tese. O especialista apurou que de 81 empresas que compunham a carteira do Ibovespa no período de setembro a dezembro de 2023, existe pouca conexão entre as informações ESG e as informações de caráter econômico-financeiro apresentadas nos balanços das companhias.

Voltando há 2022, de 81 companhias avaliadas, apenas 78 divulgaram o relatório de sustentabilidade, enquanto 58 delas disseram possuir uma análise específica (relatórios nomeados como: Sustentabilidade, ESG, ASG, Socioambiental). O restante divulgou as informações por meio de um Relato Integrado seguindo as diretrizes do International Integrated Reporting Council (IIRC).

Apesar de a maioria delas apresentarem divulgações sobre a governança da sustentabilidade, em alguns casos, elas ainda são muito genéricas, e não adentram nas especificidades que as Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade (IFRS S1) exigem.

Para Murcia, as informações compostas nesses documentos ainda não atendem por completo a necessidade informacional de acionistas e credores.

“Ao que tudo indica, neste momento, parte relevante das empresas não parece estar pronta para os desafios que a asseguração razoável das informações sobre sustentabilidade irá trazer.”

A pesquisa do especialista reforça que, o que já não era muito agradável, pode ser algo ainda mais desagradável entre as companhias.  Com a ascensão do ESG, e levando em consideração o fato de que o tema está despertando a preocupação da população, informações financeiras que incluem aspectos ESG passarão a ser de divulgação obrigatória pelas companhias a partir de 2026. A CVM prevê uma investigação completa dessas informações, com maiores exigências vindo dos auditores e das companhias.

Até o momento, essas práticas eram voluntárias por menos de três anos, incentivando a adoção precoce. O Conselho Federal de Contabilidade (CFC) respondeu emitindo a Resolução CFC nº 1.710, que estabelece prazos semelhantes para que os contadores adotem essas normas.

A ideia é que as empresas comuniquem seus compromissos com práticas sustentáveis e a gestão responsável de recursos, indo em linha com tudo o que foi destacado neste artigo até agora.

O ‘calo’ em comum do mercado financeiro

Há um passado não tão distante, a rentabilidade de uma ação de uma empresa listada na B3, assim como a capacidade de pagar bons dividendos aos acionistas, o valuation (valor de mercado) e a solidez, era o que ditava os investimentos que nela seriam realizados – a mesma lógica se aplica a empresas que não possuem capital aberto. Mas no mercado financeiro, existe uma dor em comum do ponto de vista ESG: qual o valor das estratégias se, não necessariamente, elas se traduzem em retorno financeiro.

A perspectiva acima é de Marcelo Douek, que produz e dissemina conteúdos com foco nas narrativas de impacto social e Storytelling.

Apesar de ser quase um senso comum entre os executivos do mercado, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) vai na contramão, quando sinaliza que o ESG está totalmente embasado nos resultados financeiros e na longevidade dos negócios.

Para o Sebrae, a preocupação até faz sentido, mas o órgão sinaliza que, cada vez mais, a lógica dos consumidores pensando em ESG se faz presente ao usarem produtos, serviços ou ações de investimento, pois passou a ser um fator de análise.

Apesar de as finanças serem um ponto importante, é tão importante quanto saber que o meio ambiente precisa de atenção, simplesmente pelo motivo de que ele precisa de atenção. Em linha, Douek detalha dizendo que é irônico que a conversa sobre investir – ou não – em práticas sustentáveis aconteça enquanto a natureza segue seu curso natural, que é implacável e indiferente às conveniências econômicas.

“A crise climática não faz pausas para conferir se seus efeitos estão alinhados com os interesses dos conselhos de administração da Faria Lima”.

Com isso em mente, é possível notar que o ESG tem despertado o senso de responsabilidade das pessoas enquanto sociedade. Isso porque, a conscientização em relação às mudanças climáticas tem aumentado significativamente – o que abre margem para a discussão de temas como os impactos que, além das empresas, também já pesam na conta da raça humana.

Nesse sentido, os profissionais de contabilidade podem aproveitar o curso 100% grátis da Fipecafi, que aborda reflexões fundamentais da estratégia organizacional voltada para questões ambientais ESG dentro do mundo corporativo. O curso leva em consideração o papel dos principais stakeholders organizacionais.

6 mitos sobre a integração ESG nas escolhas de investimento

Em relatório produzido por Rafael Siqueira Mingone, mestre em Ciências Contábeis e Atuariais pela PUC-SP e mestrando em Finanças e Controladoria pela FIPECAFI, existem 6 mitos sobre os investimentos em ESG que foram desmentidos por Kotsantonis, Pinney e Serafeim (2016). Acompanhe abaixo:

Mito 1 – Programas ESG fazem com que o retorno sobre o capital e o valor para o acionista de longo prazo sejam reduzidos. Mas na verdade, as empresas comprometidas com ESG estão encontrando vantagens competitivas nos mercados de produtos, mão de obra e capitais. Além disso, carteiras que integraram métricas ESG “materiais” proporcionaram retornos médios a seus investidores, superiores aos das carteiras convencionais, ao mesmo tempo em que apresentam menor risco.

Mito 2 – O ESG está bem integrado ao gerenciamento de investimentos convencional. Na verdade, os signatários (entidades e/ou pessoas que assinam um acordo documentado) de os Princípios para o Investimento Responsável (UNPRI) comprometeram-se apenas a seguir princípios para investimento responsável, o que ainda não garante uma integração robusta de considerações ESG em suas decisões de investimento.

Mito 3 – Empresas não são capazes de influenciar o tipo de acionistas que compram suas ações, de forma que gerentes corporativos devem sacrificar as metas de sustentabilidade para atingir as metas de lucros trimestrais. Na realidade, as companhias que buscam grandes iniciativas de sustentabilidade e as divulgam em relatórios, geralmente também têm conseguido atrair um número desproporcional de acionistas de longo prazo.

Mito 4 – Dados ESG são escassos e não confiáveis para análise fundamental. Muitos nomes de relevância no mercado derrubam o argumento, como organizações de relatórios e investidores, como Itaú BBA, XP Inc e provedores de dados como CDP e Bloomberg.

Mito 5 – O ESG só agrega valor ao diminuir os riscos. O contra-argumento é que empresas com altas pontuações ESG também experimentaram aumentos na eficiência operacional e expansão em novos mercados.

Mito 6 – Considerar fatores ESG pode criar conflito com o dever fiduciário. Na realidade, muitos fatores ESG já mostraram ter correlações positivas com o desempenho e o valor financeiro das empresas. Inclusive, por conta disso, houve uma revisão sobre as orientações estabelecidas antes para fundos de pensão sobre a validade de considerar fatores “não financeiros”, ao investir em empresas.

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